Mas do que tudo devo acalentar no coração esse amor
Que me faz viver, no mundo limitado, uma vida sem limites.
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Ele é como o lótus, que floresce, esplêndido, na água.
Sem que, porém, uma só gota venha a molhar suas pétalas.
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Ele é como a esposa, que entra no fogo para provar a fidelidade*,
E queima, e deixa os outros aflitos, mas não desonra o amado.
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Como é difícil atravessar o oceano deste mundo!
Como suas águas são tormentosas e profundas!
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Kabir diz: Escuta-me e acredita, ó sadhu!
Poucos são aqueles que alcançam a outra margem.
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*Segundo a lenda, Sita, esposa de Rama, acusada injustamente de adultério, a deusa se submete à “prova do fogo”, para demonstrar sua inocência.
Kabir, grande mestre e poeta indiano do século XV, discorreu, em linguagem acessível, sobre o amor místico e a comunhão com o divino. Kabir não se definia como hindu, muçulmano ou sufi. Ele desprezava credos, denominações e ascetismos, levando a filosofia oriental a um novo rumo.
Fonte: Kabir, Cem Poemas, selecionados por Rabindranath Tagore. José Tadeu Arantes, Ed. Attar, 2 ed., 2019.