A sabedoria de Kabir [30]

Em certa árvore há um pássaro, que canta a alegria da vida.

Nos galhos mais escondidos, lá ele desce e descansa.

Chega ao cair o crepúsculo, e parte ao erguer-se a aurora.

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Que pássaro é esse que canta dentro de mim?

Não tem forma nem cor, não tem contorno nem estofo.

Ele pousa na sombra do amor e repousa no inatingível.

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Kabir diz: Ó sadhu, meu irmão, guarda para ti este mistério. E deixa que os sábios encontrem onde tal pássaro se oculta.

Kabir, grande mestre e poeta indiano do século XV, discorreu, em linguagem acessível, sobre o amor místico e a comunhão com o divino. Kabir não se definia como hindu, muçulmano ou sufi. Ele desprezava credos, denominações e ascetismos, levando a filosofia oriental a um novo rumo.

FonteKabir, Cem Poemas, selecionados por Rabindranath Tagore. José Tadeu Arantes, Ed. Attar, 2 ed., 2019.

A sabedoria de Kabir [29]

Gorakhnath pergunta a Kabir *:

Quando tua vocação se manisfestou? Onde teu amor teve origem?

Kabir responde:

-Quando a deusa de múltiplos véus ainda não inciara sua dança,

-Quando não havia guru ou discípulo, e nem o mundo existia,

-Quando o Supremo Uno estava só, foi que me tornei um asceta,

-Foi, então, ó Gorakh, que meu amor se voltou para Brahman.

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-Brama não pusera a coroa, Vishnu não fora ungido,

-Shiva não manifestara seu poder, quando fui inciado no ioga.

-Desvelei-me em Varanasi (Benares), e Ramananda acolheu-me como pupilo.

-Trouxe comigo a sede do infinito, e vim a este mundo para encontrá-lo.

-Em simplicidade, meu amor cresce, até alcançar o sumamente simples.

-Escuta também, ó Gorakh, a música do simples.

-E dança o compasso!

*Goranakhnath é um dos 18 siddhas (iogues perfeitos), e um dos 9 nath saddhus (ascetas sagrados). Essas duas linhagens, ambas da tradição shivaista, tiveram enorme importância no desenvolvimento do ioga. E ao próprio Goranakh são atribuídos vários tratados dedicados ao assunto, além de textos sobre filosofia, alquimia e medicina. Alguns autores argumentam que esse grande santo e sábio teria vivido no século XI ou XII. Mas os devotos fazem sua existência remontar a tempos imemoriais e afirmam que ele seria um daqueles que, por meio do ioga, teriam conquistado a imortalidade. Existem os que vão ainda mais longe e o consideram uma encarnação do próprio Shiva. Ao adotar como interlocutor fictício um iogue dessa estatura, Kabir dá bem uma ideia da grandeza de sua própria realização espiritual.

Kabir, grande mestre e poeta indiano do século XV, discorreu, em linguagem acessível, sobre o amor místico e a comunhão com o divino. Kabir não se definia como hindu, muçulmano ou sufi. Ele desprezava credos, denominações e ascetismos, levando a filosofia oriental a um novo rumo.

FonteKabir, Cem Poemas, selecionados por Rabindranath Tagore. José Tadeu Arantes, Ed. Attar, 2 ed., 2019.