Gorakhnath pergunta a Kabir *:
Quando tua vocação se manisfestou? Onde teu amor teve origem?
Kabir responde:
-Quando a deusa de múltiplos véus ainda não inciara sua dança,
-Quando não havia guru ou discípulo, e nem o mundo existia,
-Quando o Supremo Uno estava só, foi que me tornei um asceta,
-Foi, então, ó Gorakh, que meu amor se voltou para Brahman.
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-Brama não pusera a coroa, Vishnu não fora ungido,
-Shiva não manifestara seu poder, quando fui inciado no ioga.
-Desvelei-me em Varanasi (Benares), e Ramananda acolheu-me como pupilo.
-Trouxe comigo a sede do infinito, e vim a este mundo para encontrá-lo.
-Em simplicidade, meu amor cresce, até alcançar o sumamente simples.
-Escuta também, ó Gorakh, a música do simples.
-E dança o compasso!
*Goranakhnath é um dos 18 siddhas (iogues perfeitos), e um dos 9 nath saddhus (ascetas sagrados). Essas duas linhagens, ambas da tradição shivaista, tiveram enorme importância no desenvolvimento do ioga. E ao próprio Goranakh são atribuídos vários tratados dedicados ao assunto, além de textos sobre filosofia, alquimia e medicina. Alguns autores argumentam que esse grande santo e sábio teria vivido no século XI ou XII. Mas os devotos fazem sua existência remontar a tempos imemoriais e afirmam que ele seria um daqueles que, por meio do ioga, teriam conquistado a imortalidade. Existem os que vão ainda mais longe e o consideram uma encarnação do próprio Shiva. Ao adotar como interlocutor fictício um iogue dessa estatura, Kabir dá bem uma ideia da grandeza de sua própria realização espiritual.
Kabir, grande mestre e poeta indiano do século XV, discorreu, em linguagem acessível, sobre o amor místico e a comunhão com o divino. Kabir não se definia como hindu, muçulmano ou sufi. Ele desprezava credos, denominações e ascetismos, levando a filosofia oriental a um novo rumo.
Fonte: Kabir, Cem Poemas, selecionados por Rabindranath Tagore. José Tadeu Arantes, Ed. Attar, 2 ed., 2019.